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sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Prática da Liberdade

Encerrou neste último domingo, 31 de janeiro, o Fórum Social Mundial – FSM2021, desta vez realizado de forma virtual por conta da pandemia.

Fui convidado a participar de um painel — PRESSÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE O IMAGINÁRIO COLETIVO E RESISTÊNCIAS — com pessoas de diversos países (ver informações no pé da matéria), mediado pela jornalista Bia Barbosa, do Conselho Gestor da Internet do Brasil pela Sociedade Civil e ativista do Fórum Mundial de Mídia Livre.

A proposta do painel era trazer uma abordagem transversal entre a CULTURA, EDUCAÇÃO E COMUNICAÇÃO que, juntas, compõe parte fundamental da construção de nossas certezas, escolhas, identidades e que, no fundo, pautam a regulagem do nosso modo de vida e nos tornam, perante o cotidiano, pessoas aptas ou válidas para sermos listadas como excluídas ou incluídas.

A isso podemos chamar de contexto ideológico que, aparentemente, cobre toda a extensão da própria razão, já que uma das coisas que a atual guerra pela luta e pela vacina nos revelou é aterradora: até mesmo as tais “certezas científicas”, que achávamos que salvava vidas, levava a humanidade para patamares de evolução e bem estar e era “neutra”, “lidava com verdade”, “era fundada em certezas objetivas”… pois bem, mesmo a ciência mostrou-se ancorada, muitas vezes, na mais vã das ideologias e no negacionismo obscurantista, através de um séquito de falsos profetas e cientistas, entretanto legítimos e válidos em seus títulos de doutores e pastores.

A ideologia não é apenas algo “imaginário” ou uma ideia errada ou distorcida da realidade feita por encantamento coletivo a partir de ferramenta “dos poderosos”, mas uma imposição material de um imaginário através de aparatos que incidem diretamente controlando nosso corpo: tempo vital, carga de estudo e trabalho, acesso ao emprego, educação, cultura e à própria civilidade ou reconhecimento da sanidade.

Esse imaginário não é, portanto, uma ilusão sobre o mundo, mas uma forma de organização vital de intervenção subjetiva que temos como lastro de vida.

Trata-se de um UNIVERSAL, mas não um universal realmente de todo mundo, mas constrangido e implementado sob a força de leis e instrumentos concretos de dor, constrição do corpo e morte. Ou seja, a IDEOLOGIA é tão material quanto o corpo que pode constranger, prender, matar ou prescindir de vacina: atua diretamente sobre nossa vida!

E tem força em nossa política: por exemplo, quando estudantes protestam pelo absurdo preço do transporte público em São Paulo, que inviabiliza diversas pessoas de continuarem seus cursos — daí a importância da luta pela MANUTENÇÃO na Universidade, além da luta pelo INGRESSO — o que nos coloca diante do “certo” e do “errado” é uma decisão ideológica entre seguir as regras cotidianas que acham justo pagarmos para nos movermos para qualquer lugar e enriquecer empresas com subsídio público, além dos lucros operacionais garantidos; ou se olhamos para uma nova geração inteira dizendo que “isso está errado”, ou para pessoas da terceira idade dizendo “está errado tirar meu direito de locomoção” e, mesmo sabendo das regras, das punições ou restrições, optamos pelo abismo da ação dos corpos e… pulamos a catraca.

São os corpos que vão muito além das restrições e são, de fato, os que ocupam uma moradia, uma fazenda improdutiva para produzir alimentos, beijam-se em público e expressam a transexualidade como uma das faces humanas do desejo de si, da alteridade e da subjetividade.

São os corpos, que os religiosos tanto teimam em imolar, que vão em frente… a razão vem depois, tentando organizar uma ordem para continuar a vida.

A capacidade de construir imagens e pintar quadros da realidade, para além do seu retrato estático de constrangimento, é simultânea ao movimento dos corpos, lutando para sair de algumas caixas ou gavetas onde são catalogados e alçando um movimento de resistência que passa pelo corpo, pela razão e interpretação de mundo, mas abre uma espécie de vertigem de pura potencialidade onde alçar ao desconhecido é uma forma de romper a limitação da própria ideologia.

Quando se transpõe uma porteira, conquista-se uma moradia, beija-se a ou o companheiro com amor e carinho, o mesmo que se dedica à afirmação da própria transexualidade, ou nos insurgimos contra o racismo, já se transpôs a IDEOLOGIA.

O movimento dos corpos ocupou o espaço semântico e ideológico e seu território de regras, e resta a RESISTÊNCIA DO TERRITÓRIO OCUPADO, seja ele uma moradia, seja a subjetividade conquistada para além da misoginia, do racismo e do preconceito.

Essa disputa territorial simbólica pode ser expressa magistralmente na luta entre duas palavras: “OCUPAR “e “INVADIR”.

Esta última, “invadir” é a forma com que as pessoas que lutam por seus direitos de terra e pão são chamadas pelos grandes jornais e mídia conservadora: “estão invadindo o direito de propriedade, sagrado entre nós”.

A primeira, “OCUPAR”, revela o próprio sentido original do movimento: ocupar, isto é, entrar conquistando algo de direito, moradia e educação, que colocam as vidas acima da especulação sobre terras improdutivas ou imóveis inadimplentes e massas falidas nas cidades.

 

AGENTES DO IMAGINÁRIO

Podemos chamar esse grande enfrentamento e resistência de luta simbólico de luta através dos AGENTES DO IMAGINÁRIO, como foi apelidado por Rita Freire, uma das organizadoras do FSM2021 e da Ciranda.

O “imaginário” não é aqui compreendido, claro, como algo sonhador ou fora da realidade, ou algo veiculado ou propagandeado como conteúdo pronto, como as ficções. Ao contrário, IMAGINÁRIO tomado como suporte de conhecimento e intervenção subjetiva e concreta na realidade, em um processo contínuo, impetuoso e extremamente potente de prática de liberdade.

Essas últimas palavras são inspiradas em textos do filósofo e educador Paulo Freire (1921-1997), que foi citado por diversos painelistas e revelou uma possível abordagem transversal para algumas de suas ideias, muitas vezes consideradas da educação, mas que podem ajudar a compreender as formas de resistência também nas esferas da comunicação e da cultura.

E essa foi justamente a ousadia e originalidade do PAINEL, a abordagem desse tripé — cultura, educação e comunicação — que possibilitou uma visão de resistência simbólica conjunta.

Se isoladas, as abordagens da mídia nos levam para batalhas na imprensa ou editorias e assessorias, a luta da cultura pela conquista de editais e sobrevivência em uma época tão adversa e na educação na luta como categoria profissional ou na pauta de recursos. Todas lutas legítimas e da ordem do dia, mas que podem não dar conta do aspecto gral do enfrentamento simbólico no ponto de convergência entre elas, no imaginário coletivo.

Através de uma abordagem holística, que tenha os três campos sob um mesmo território de ocupação, as questões podem ir além dos campos específicos e tornar possível uma resistência de caráter simbólico.

 

USURPAÇÃO DA AUTORIA

No Painel, um dos problemas centrais apontados foi o acesso, tanto à cultura e educação formais, quanto à tecnologia que hoje propõe uma universalidade virtual.

O problema é agravado ainda do ponto de vista da produção de conteúdo, cada vez padronizado e imposto sob diversos tipos de imposições de padrões, sejam eles de veículos de comunicação ou lançamentos de tendências da arte, linhas de livros didáticos, algoritmos de participação digital, trazendo consigo toda uma camada ideológica sobre nosso modo de vida.

Um dos sentidos mais perversos da produção contemporânea, é sua divisão social em castas sociais que mantém uma rígida segregação entre PLANEJAR e EXECUTAR e que envolve o tripé cultura-educação-comunicação.

Todo o sistema de educação e cultura parece conspirar para essa segregação da autoria e do planejamento: na educação através do oferecimento seletivo do acesso a vagas e organização curricular; na cultura pela segregação entre baixa e alta cultura e na comunicação pela posse de hardware, pela banda virtual e pelos acessos que as pessoas dispõem para recuperação de informações.

A prática da liberdade, nesse contexto, pode voltar-se para a resistência à passividade do conhecimento como absorção de informações e pautar-se pelo exercício pleno de subjetividade e identidade.

 

CONHECIMENTO COMO PRÁTICA DE OCUPAÇÃO SIMBÓLICA

Conhecer o mundo não é a mesma coisa sob pontos de vista regional, social ou racial diferentes, muito menos a aceitação de valores de “patrimônios universais”, estéticos ou midiáticos, muitas vezes trancafiado em museus enquanto a própria vida não é vista como tendo valor para a repressão do estado.

Uma parte das crianças morre sob balas, a outra para se formar tem que aceitar o que seja o “patrimônio universal”, mesmo que isso fira profundamente sua alma.

As palavras que parecem ter o mesmo significado, tem sentidos muito diferentes para quem as possui de fato no mundo e às propriedades que elas significam quando soam: direitos, terra, dinheiro, acessibilidade, preservação da vida… liberdade!

Nos espaços institucionais, a prática da ocupação simbólica passa pela amplitude do universo oferecido, através da inclusão de culturas, povos e acervos artísticos.  Essa amplitude é simbólica, mas também concreta e se revela nas escolhas editoriais ou curatoriais que buscam um movimento decolonialista, ampliando acesso às obras e presença em acervos, além do reconhecimento autônomo e autoral dos espaços, ritmos e processos não convencionais de preservação e produção estética das comunidades.

Nos espaços da prática em si, da educação, da cultura e da comunicação, passa pela centralidade da expressão e da afirmação do discurso, tornando possível que a arte, além de ingressar nos cotidianos através dos objetos, designes de móveis, arquitetura e trilhas musicais — como era o sonho das vanguardas da modernidade — também possa ingressar nos cotidianos com sua criatividade, transgressão criativa e incrível potencial expressivo!

Sob essa abordagem, todo o campo da cultura-educação-comunicação, podem ser colocados como tendo a missão de desenvolver e expressar uma “PRÁTICA DA LIBERDADE”, como escreveu Paulo Freire, com tanta propriedade e contemporaneidade.

Uma prática da liberdade que, na cultura e na estética tem se revelado como uma forma de SITE ESPECÍFICO VIRTUAL: uma transcendência do site específico como ocupação de um lugar no mundo para a ocupação artística e cultural de um lugar próprio na arena semântica e simbólica.

SERVIÇO

 

PRESSÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE O IMAGINÁRIO COLETIVO E RESISTÊNCIAS. Painel Comunicação, educação e cultura. Fórum Social Mundial – FSM2021. Proponentes: Ceaal, IPF, Ciranda, Intervozes, APC, Fórum Mundial de Educação, FMML, Flacso-Clacso. FSM 2021. 26 de janeiro de 2021, 14h -16h30 GMT (Greenwich Mean Time (GMT)). Na imagem, da esquerda pra direita: Bia Barbosa (Brasil), Beatriu Cardona i Prats (Espanha) , Oscar Jara (Perú y Costa Rica), Gustavo Gómez (Uruguay), Loreto Bravo (México), Antonio Herci  (Brasil), Bhavna Jha (India), Refaat Sabbah (Palestina), Barka Ba (Senegal), Célia Maracajá (Amazonas- Brasil).

FREIRE, Paulo (1921-1997). EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE. Paz e Terra, 1967.

 

 

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