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segunda-feira, março 29, 2021

Ministério da Educação: ‘que comecem os jogos’!

Tratar de política (politics, polity e public policy) usando a ‘dialética dos jogos coletivos’ é muito fértil, pois possibilita a compreensão: da ‘armação’ dos times e jogadas’; de quem são os patrocinadores; de quem são as torcidas etc. A política, assim como um ‘jogo coletivo’, não possui caráter unidimensional, com uma única estratégia e, muito menos, com uma única tática ou um único tipo de jogador. Existem muitos interesses, lances etc.

Jogo é jogo! Política é política! Jogo é política! Política é jogo!

Os Campeonatos não retrocedem! Mas, é fundamental conhecer a forma como os times adversários da Educação Pública Brasileira armaram suas jogadas ao longo das partidas. “Universidade não é para todos, mas somente para algumas pessoas”; “As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual” (Ricardo Velez, jan/abr.de 2019.).“Balburdia nos Campi das Universidades Federais”; “plantações extensivas de maconha nas universidades brasileiras” (Abraham Weintraub, abr./19 a jun./20); mentira sobre os seus atributos (Carlos Alberto Decoltelli, 26/06/20 a 01/07/20 – o que foi, mas acabou não indo); “nós temos hoje no Brasil, motivados creio eu, meu diagnóstico, por essa quebra de absolutos e de certezas, verdadeiros zumbis existenciais”; “a grande moda de alguns sociólogos e filósofos é desconstruir valores” (Milton Ribeiro, jul./20 aos dias atuais).

Todo campeonato tem partidas que são consideradas importantes! E isso depende do adversário a ser derrotado! Então, todos os esforços do time serão voltados para estabelecer as estratégias e táticas necessárias! Para que seja alcançada uma vitória, precisamos conhecer o adversário em todas as suas astúcias!

Que comecem os jogos!

O Campeonato de 2021 iniciou com Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2020. Grande expectativa dessa partida e de como os “zumbis existências” iriam se comportar! Segundo o time do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), após a segunda etapa, houve a abstenção de 55,5 % das inscrições confirmadas para o ENEM impresso. Como era de esperar, grande abstenção!

Mas, para o jogador do Ministério da Educação (MEC), isso não tem importância! “A abstenção é compreensível e não justificável. A decisão [de fazer um aprova ou não] é individual. Isso para mim não é relevante. O que importa é o fato de para o Inep é assegurar a oportunidade de quem quer fazer o ENEM, poder fazer”. “O Enem foi um sucesso e algo vitorioso”. “Mobilizar milhões de pessoas, para mim foi um sucesso”.

É como se a função do jogo fosse a de deslocar pessoas para um campo esportivo (estádios, quadras etc.)! A função do Enem é a de mover pessoas que querem estudar!

Ah… Isso sim, é relevante!

Como um jogador responsável por três políticas de ingresso às Universidades através do uso da nota do ENEM – Sistema de Seleção Unificada (SISU), Programa Universidade para Todos (Prouni), Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) – não se importa com a abstenção de 55,5 % dos candidatos? “[Adiar o Enem] ia atrasar muito a vida dos estudantes e não queríamos atrasar muito a vidas dos estudantes, sobretudo os oriundos das escolas públicas”.

Quem são estudantes das escolas públicas? São aqueles que em muitos casos, não tiveram acesso ou garantia ao ensino sistematizado durante a pandemia! É como um jogador tivesse ‘algum problema’ e a decisão de jogar fosse dele, e não de um conjunto de fatores que o possibilitaria!

Mas, isso “não é relevante”!

Segundo o Jogador do INEP: “a abstenção é uma decisão individual. Não sei a realidade e o comprometimento de quem fez a inscrição. Para mim, não é relevante. Foi mais do que a gente estava esperando. Mas, eu gosto de olhar o copo meio cheio. Cerca de 2 milhões de pessoas conseguiram fazer o Enem, em um ambiente de pandemia, de receio. […] E o Brasil, com toda a sua dificuldade e desigualdade, você assegurar que 5 milhões pudessem fazer a prova, e 2 milhões fazerem, é assegurar uma oportunidade”.

Simples assim…Os 2.634.638 ‘quiseram fazer’ e os 3.052.633 não quiseram fazer! Simples assim…

As afirmações dos jogadores do MEC e INEP enaltecem o princípio da meritocracia:  todo indivíduo é capaz de progredir exclusivamente com suas capacidades sem precisar da ajuda da sociedade, Estado ou família. E, reafirma a ideia de self-made man (homem que se faz a si mesmo, apenas com seu próprio empenho) que privilegia as qualidades do indivíduo como a inteligência e a capacidade de trabalho, e não sua origem familiar ou suas relações pessoas. Mas esses conceitos têm sentido em um país com tanta desigualdade social e educacional?

Como um jogador de bairro, de várzea, de ‘colégio’ vira um ‘jogador estrela’? Um jogador por mais brilhante que seja alcançaria o sucesso se não tivesse: algum tipo de ajuda, oportunidade, ‘olheiro’, assessor, empresário, patrocinadores etc.; um time que apostasse em seu potencial?

Quem são os “zumbis existências”, candidatos às vagas nas universidades?

Mas, “isso não é relevante”!

Segundo o Iconográfico do INEP – Enem2020 Números da edição e perfil dos inscritos – , das 5.687. 271 de inscrições confirmadas para ENEM impresso 56,5% tem até 20 anos (até 18 anos 40,6%; 19 a 20 anos 15,9%); 60% gênero feminino; 3.720.23 concluíram e 1.374.075 iriam concluir o Ensino Médio (EM) em 2020; 4.706.589 isentos de pagamento das inscrições (estudantes que estão no terceiro ano do ensino médio em escolas públicas; estudantes de escolas públicas ou bolsistas integrais de colégios particulares que tenham renda familiar mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa.; inscritos no Cadastro Único (CadÚnico) de Programas Sociais do Governo Federal com renda familiar por pessoa (meio salário mínimo) ou renda familiar total (até três salários mínimos).

Mas, “isso não é relevante”! Os 2.634.638 ‘quiseram fazer’ e os 3.052.633 não quiseram fazer! Simples assim…

Qual o sentido em jogar apenas com alguns jogadores disponíveis; sem auxiliares, ‘gandulas’, ‘pega bolas’ etc.? Em que jogo coletivo as condições físicas e emocionais dos jogadores, a estrutura do campo ou da quadra etc., não são consideradas como importantes para que a partida ocorra ?

A símile do “copo meio cheio ou meio vazio” demostra uma opção de preferência do indivíduo em ser otimista ou pessimista. Realmente, para um governo que prega a universidade para poucos, 2.634.638 de 5.687. 271 é “copo meio cheio”! Para os defensores da Educação Pública e da ‘Universidade para todos’’ é “copo meio vazio”! O otimismo e o pessimismo fazem parte dos jogos e da política! Mas, não podem servir como base analítica ou argumentativa de política pública (public policy)!

Os Campeonatos têm mostrado qual o projeto do MEC em relação ao Educação Pública Brasileira! Não podemos continuar afirmando que não existe ‘projeto’ ou que ‘eles não sabem o que fazem’! Sim, existe um projeto, que está sendo revelando, através de ações ou não ações; omissões; discursos; homilias; pregações; piadas etc. Sim, ele é um projeto que tem grandes patrocinadores e uma grande torcida, seja organizada ou não!

Enfim, iniciamos o Campeonato de 2021 ‘sem oxigênio’; com o ‘pandemônio do ENEM’; com a pandemia COVID 19; com a ‘ciência das redes sociais’; sem ‘virarmos jacaré’; com ‘negacionismo seletivo’; com símiles; com a ‘meritocracia’; com a ‘pseudo liberdade individual’; com o ‘mantra da eficiência, mas com a ‘fantástica fábrica de leite condensado’.

Isso sim, é relevante!

Não podemos descansar um único dia!

Que os jogos comecem!

Que comecem os jogos!

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