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terça-feira, fevereiro 23, 2021

20 anos de feminismos no FSM

Terezinha Vicente
Terezinha Vicente é jornalista e midialivrista; ecofeminista e libertária; mãe e avó; militante pelo direito à vida humana para todos os humanos e por outro mundo possível!

Uma avaliação dos 20 anos do Fórum Social Mundial, e do movimento de mulheres, por feministas das redes internacionais mais importantes que se construíram a partir do FSM.

 

O século XXI começou com urgência do encontro mundial de todas e todos as e os lutadores dos movimentos sociais da classe trabalhadora, dos povos originários, das mulheres, dos negros e outros povos colonizados.  Desde então, a globalização e o neoliberalismo aprofundam as opressões individuais, desvalorizam ainda mais o trabalho e a classe trabalhadora, multiplicam e concentram o capital e aprimoram uma cruel cultura dominante, degradando educação, saúde, valores, com a terceirização do trabalho e total controle dos meios de comunicação. As feministas anticapitalistas e antirracistas já enfrentavam uma narrativa política cheia de misoginia, racismo, heteronormatividade que era, e segue sendo usada para justificar o descarte de vidas. Neste contexto histórico é construído o Fórum Social Mundial, a partir do Brasil e América Latina, onde a esquerda respirava um pouco com a eleição de alguns governos progressistas. Juntaram-se também alguns movimentos da Europa, sobretudo o ATTAC (Associação pela Tributação das Transações Financeiras para o Apoio aos Cidadãos), iniciado na França.

Miriam Nobre

 

“A força das instituições multilaterais governando o nosso destino já estava muito evidente”, lembra Miriam Nobre, militante pela agroecologia, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). “Já tínhamos feito movimentação contra OMC em Seattle, já havia esses grandes encontros do FMI e Banco Mundial, da OTAN, já eram momentos de encontro de um movimento anti globalização”.

 

A MMM surgiu a partir de uma articulação com feministas do Quebec, quando realizamos uma campanha internacional contra o neoliberalismo para culminar no ano 2000.  “A Marcha terminou nos Estados Unidos, onde tivemos audiências no FMI e no Banco Mundial para apresentarmos nossas reivindicações no campo político econômico e na questão das guerras, pelo fim da violência contra as mulheres”.

Célia Maracaja

Essa busca de encontros internacionais já existia também entre os povos originários. “Nossos povos sempre buscaram esta aproximação”, conta Célia Maracajá, atriz e cineasta de Belém do Pará. “Por exemplo, em dezembro de 1999, em Belém do Pará, tivemos o II Encontro pela Humanidade contra o Neoliberalismo, com a participação dos indígenas mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional que aqui encontraram seus parentes amazônicos”.

A Articulação Feminista Marcosur também teve inspiração nos zapatistas, disse Gina Vargas, atuante feminista peruana que faz parte do Conselho Internacional do FSM, no painel “Feminismos e Diversidade Sexual”, ocorrido na quinta, 28.  (Recomendo, tá lá no Youtube do FSM virtual). “As organizações feministas já buscavam caminhos internacionais comuns”, lembra Gina, que faz parte dessa Articulação.

Verônica Ferreira

“A Articulação Feminista Marcosur nasceu no espaço do Fórum, nesse processo de encontros com feministas de outros países”, diz Verônica Ferreira, educadora do SOS Corpo (Recife-PE) e das “Mujeres del Sur”.  Ela apresenta esta Articulação como “uma corrente de pensamento e ação política feminista latino-americana, antissistêmica, que atua hoje em 11 países, vinculando 16 organizações, fazendo incidência política feminista, articulando movimentos em processo de luta estratégica nos diferentes campos de luta das mulheres”. Uma delas é a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), de cuja coordenação Verônica faz parte.

 

“Para a Articulação de Mulheres Brasileiras, o FSM representou um marco na resistência dos movimentos sociais, no enfrentamento da hegemonia neoliberal forte que se colocava naquele momento”.

“O Fórum foi um momento da gente se reencontrar, mulheres de várias partes do mundo. Foi um respiro para conseguirmos organizar agenda não em reação, mas a partir das nossas demandas, com as nossas alternativas”, avalia Miriam. “Para nós foi bastante significativo porque estávamos com a ideia de um movimento internacional, mas ainda estávamos muito vinculadas à realidade nacional. A possibilidade de encontrar companheiras do mundo todo nos deu aquela sensação de internacionalismo, que foi constitutiva da Marcha”. Ela acredita que para o crescimento de todo o movimento feminista o FSM foi importante. “Foi aterrar num internacionalismo fundado na ideia da luta contra o neoliberalismo, na percepção de que ser feminista era ser anticapitalista”.

Diversidade das lutas e de feminismos

A partir de 2001, o FSM deu extraordinário impulso à internacionalização de todas as lutas. “O Fórum Social Mundial trouxe à tona uma constelação de atrizes e atores coletivos que se encontravam submersos na maré neoliberal”, analisa Célia Maracajá, atriz e cineasta de Belém do Pará. “Entre eles, os povos originários de diversos quadrantes do mundo, que passaram a se encontrar, trocar experiências, celebrar alianças entre Ocidente e Oriente”.

Em 2002, em Belém, foi criado o Fórum Social Panamazônico, que realizará no próximo ano a sua décima edição. Célia lembra bem de 2009, quando a capital paraense sediou o FSM. “Na Amazônia Brasileira, aconteceu um FSM, que ficou marcado pelo protagonismo dos povos indígenas. Nossa fala, nossos cantos, nossas dores, nossas exigências ecoaram pelo mundo afora. E a palavra que voa no vento para nós tem um valor inestimável”.

Assim como as indígenas ainda estão invisíveis entre as feministas, as feministas tiveram que lutar contra a invisibilidade no início do FSM, recorda bem Gina Vargas. Segundo ela, as mulheres eram 57% no 1º Fórum e nos painéis eram apenas 11%. Isso chamou a atenção das feministas, que começaram a se organizar e pressionar o Conselho Internacional do Fórum. “Lutamos para ter lugares no CI e para fazermos parte das outras mesas do Fórum, quase só de homens. Foi uma disputa permanente e aberta”. Gina também nos lembra que, no primeiro ano, o Fórum foi em oposição à Davos, foi um fórum de confronto. A partir do segundo ano decidiu-se que o FSM seria uma voz propositiva, e logo começam a surgir fóruns temáticos, descentralizados, para propor alternativas. A incidência das feministas é para confrontar algumas visões que não querem mudanças tão radicais como as que as feministas querem.

Fonte: arquivo MMM - FSM 2009

 

Miriam, da MMM, acredita que quando o FSM começou a se desdobrar muito, ganhou uma dinâmica que desequilibrou uma das pernas da sua organização. “É importante para a Marcha o equilíbrio entre esses dois lugares de encontro, aquele da resistência, de confrontar as instituições mesmo, e o Fórum, onde a gente podia conversar entre nós com mais cuidado”, explica. “Se a gente fosse dar conta de tudo que o Fórum exigia, a gente teria menos força pra colocar nos enfrentamentos de resistência. No Fórum o pessoal tinha uma fé muito grande nas metodologias, como se fosse um modelo adaptável a qualquer circunstância. Então houve uma proliferação de Fóruns, como se fosse a forma de construir processos de articulação e luta. Mas nada substitui a confiança política e a força que a gente vai construindo no caminho da luta comum”. Entre investir no movimento internacional e nas lutas locais, a Marcha Mundial de Mulheres escolheu as segundas e se retirou da organização do FSM.

Para a AMB e a Articulação Marcosur, “o Fórum foi e continua sendo um espaço estratégico de articulação da pluralidade dos movimentos sociais, do campo da esquerda, que apostam na transformação construindo lutas locais com vínculos internacionalistas”, diz Verônica.

“Espaço para uma atuação política e uma presença feminista organizada, levando o feminismo para o programa de transformação, para um posicionamento frente a ideologia neoliberal, patriarcal, racista e colonial, e ao mesmo tempo reafirmar a estratégia feminista para transformação da própria esquerda”.

Para as feministas os desafios de sempre. “A partir do ideário, da prática e das questões, o feminismo traz para o coração das lutas, para a compreensão do mundo e a construção de agenda política, uma articulação que leve em consideração a situação das mulheres e as mulheres como sujeito político da transformação. Foi uma batalha naquele momento e segue sendo. O feminismo avançou muito, tem uma força de convocação cada vez mais fortalecida, mas a gente ainda lida com a necessidade de afirmar a presença feminista para construir lutas por um outro mundo possível, livre do patriarcado”.

Já a força das mulheres indígenas sempre esteve presente nas aldeias, diz Célia, que é da etnia Paresi. “Visto de fora pode ser difícil perceber isto mas as mulheres indígenas sempre foram reconhecidas, entre sua gente, como um dos pilares de sua sociedade. E necessário descolonizar o olhar quando se examina o mundo indígena, que não pode ser medido pela régua eurocêntrica”. Mas ela reconhece que agora existem mais  cacicas nas aldeias, embora sempre tenham existido. “Hoje, mulheres indígenas frequentam as universidades e estão presentes nas Artes, na Ciência, na Política e na primeira linha de defesa dos povos originários contra o massacre genocida, comandado por este desgoverno que se apossou do Brasil”.

Fundamental a luta contra os fundamentalismos

No segundo FSM aparece a Articulação Feminista Marcosur com uma campanha que chamou a atenção de todas e todos. TU BOCA FUNDAMENTAL CONTRA LOS FUNDAMENTALISMOS estava por todos os espaços do Fórum, como lembraram Verônica e Gina, que lembrou ainda do Barco Feminista, e vai se empolgando a cada lembrança da atuação das mulheres. “Uma coisa importante se passou no 3º Fórum”, diz, “decidimos fazer os Diálogos Feministas, com os temas fundamentais e mulheres de todas as partes do mundo. Era a construção de um feminismo global e era muito impactante”. Esses encontros ocorriam dois ou três dias antes do Fórum, organizados por cerca de doze organizações, recebiam e preparavam as mulheres num ambiente feminista. A campanha contra os fundamentalismos continuou, as feministas sabiam que os fundamentalistas se organizavam.

“O movimento do Fórum Social Mundial ajudou a retirar as máscaras do neoliberalismo”, acredita Célia, “e a mostrar que unidos, nós os povos da terra, podemos derrotar quem se anuncia invencível. Nos últimos tempos o mundo se entortou para a direita e isto trouxe dificuldades para o FSM, que se refletem numa perda de visibilidade e repercussão No entanto, o sentido da rebelião está sempre vivo nos corações humanos. Prova disso é a realização desta edição do Fórum, em plena pandemia, usando os recursos da tecnologia a favor dos que sempre lutaram por justiça e liberdade”.

Verônica lembra que o Fórum já vem há algum tempo discutindo seu sentido e seus rumos. “20 anos depois é um momento que nos desafia a rever a memória dessa atuação e pensar no seu futuro, essa convocação um outro mundo é possível tem muita força ainda, não podemos perder essa força. AMB e Marcosur construímos espaços em alianças, com feministas do Fórum de Economias Transformadoras, do Fórum Social PanAmazonico, para fazer uma discussão feminista sobre os desafios futuros do FSM frente à imensa e a imperativa necessidade da gente construir e fincar lutas que enfrentem esse estado de coisas”.

“A luta por um mundo diferente, muitos mundos”, diz Gina, “assim como se constroem diversos pensamentos emancipatórios, levou-nos, as feministas, a confrontarmos tudo aquilo que vinha de um único olhar, uma única etnia, uma só cultura, uma única forma de construir conhecimento.” Ela acreditou desde o início no FSM por causa de suas duas consignas – “Um outro mundo é possível” e “Não ao pensamento único”.

Verônica também bota fé. “Este Fórum tem um sentido muito importante de renovação, atualização, ampliação da sua agenda, incorporando com força o feminismo, o antirracismo, e dialoga com os levantes pelo mundo que vem acontecendo, que pautam essas questões de maneira bastante radical.  São 20 anos, a gente não pode seguir apenas, tem que se transformar também, pensar sentidos e futuro”.

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